Mário de Andrade:
etnógrafo - fotógrafo - poeta

O Brasil, sua cultura e seu povo foram os grandes interesses do poeta, músico e intelectual Mário de Andrade, que, no ano de 1927, a fim de mais conhecer seu objeto de amor e com o espírito aventureiro de um apaixonado, percorreu o Norte do País, no que descreveu como “Viagem pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia, e pelo Marajó até dizer chega”. Durante o trajeto, empunhando sua câmera Kodak e seu caderno de notas, fez registros fotográficos e escritos sobre a região. Por suas viagens etnográficas, tornou-se, então, conhecido pelo epíteto autoatribuído de Turista Aprendiz.

As fotografias trazidas do Norte retratam o homem, a paisagem, arquitetura e cultura dos locais visitados. Representa, em conjunto, o viver distante dos grandes centros urbanos do período, a saber, São Paulo e Rio de Janeiro, servindo, dessa forma, como instrumento de conhecimento dos interiores do País.

Nessas fotos estão registrados os labores no campo com a cana, o café e o gado; as populações ribeirinhas atarefadas com o transporte de madeira e alimentos; os mercados dos grupos urbanos; as trocas entre citadinos e indígenas; aspectos da vida religiosa e as lidas femininas, como a lavagem de roupas e os cuidados com crianças e animais.

Conhecedor ímpar das artes visuais, é notável o empenho do escritor em compor plasticamente seus retratos, fundindo a informação ao valor artístico, bem como seu compromisso com o conhecimento contido nas imagens, ao identificar técnica e poeticamente cada uma delas com títulos e legendas explicativos, aliando a ação do turista-etnógrafo à do fotógrafo-poeta.

As 60 fotos expostas apresentam, assim, a unificação do registro documental ao fazer poético, unidade formulada pela pesquisa etnográfica e artística de Mário de Andrade, reconhecida como testemunho fundamental para o conhecimento de parte importante das práticas e do viver da Nação nos inícios do século XX.

Mário Raul de Moraes Andrade
(São Paulo, 1893 – São Paulo, 1945)

Poeta, romancista, etnógrafo, fotógrafo, crítico de arte e musicólogo. Um dos intelectuais de maior envergadura e fundador do modernismo no Brasil e principal responsável pela realização da Semana de 22. Exerceu, por meio de seus escritos e pesquisas, grande influência nos estudos sobre a cultura popular e erudita brasileira. Trabalhou como professor de música e colunista de jornais, sendo conhecido, sobretudo, como romancista e poeta, principalmente por seu romance Macunaíma. Foi diretor-fundador do Departamento de Cultura do Município de São Paulo, criador da Sociedade de Etnologia e Folclore de São Paulo e idealizador do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, SPHAN.